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Devaneios Menstruados

Tudo o que aqui escrevo é real, por vezes um pouco exacerbado, outras vezes floreado. São os meus devaneios menstruados, as minhas histórias de vida, o emaranhado de cabos que forma a minha mente!

Tudo o que aqui escrevo é real, por vezes um pouco exacerbado, outras vezes floreado. São os meus devaneios menstruados, as minhas histórias de vida, o emaranhado de cabos que forma a minha mente!

Os sentimentos depressivos do naperon da tua avó

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Ser naperon em pleno século XXI faz de mim um totó inútil e démodé. Antigamente o meu uso elevava-me a um pódio de glória e popularidade. O maior orgulho de um novelo de linha era dar a sua vida e transformar-se, ao ser sodomizado com uma agulha de croché, num belo e branquinho naperon elaborado ao longo de umas horas de tédio, algures num lar de idosos.

Estar dobrado nesta gaveta rodeado de bolas de naftalina e todo encardido reduz-me a um pedaço de um emaranhado de linhas que em nada orgulha o ADN da minha mãezinha - carrinho de linhas nº11 - que percorre o meu corpo.

Entre as minhas tendências suicidas almejo um objeto cortante que trespasse uma das minhas bordas e inicie o desenlaçar dos pontos que me unem. Eu, naperon dos tempos da tua avó, nutro sentimentos profundos pelas televisões antigas de madeira, em que tinhas de levantar o rabinho do sofá e mudar de canal. Os tempos em que a tua televisão me aquecia as partes íntimas enquanto eu jazia sossegado e direitinho no cume do ser de um televisor. Hoje parecem folhas de papel gigantes onde não me consigo encaixar. Até os fogões são

hoje placas de indução que não permitem que nós e a fruteira partilhemos esse espaço.

Agora limito a partilhar a gaveta mais abaixo de um armário antigo com outro naperon mais moderno e tingido que sofre de Tourette! A história dele é triste, eu sei, e a criança que decidiu sarapintá-lo com canetas de feltro é a derradeira culpada do seu estado depressivo e esquizofrénico. O gajo passa o tempo com ataques loucos de gritaria sem sentido. Quando estou perto de aceitar a minha condição de refém e as dentadinhas de uma traça ou outra que resiste à naftalina, o naperon mais freak que conheço decide gritar:

- “FOGÃO, pénis*!” – num desespero contagiante.

Ou então remete para os bons velhos tempos quando grita:

- “TELEVISÃO, fónix*!” – e a única coisa que me retorna à memória é a alegria que uma boa televisão proporciona a um naperon.

Ontem vi a luz do dia numa feira qualquer de antiguidades. A minha esperança, por fim, faleceu… Aquela velhota que tanto mostrou desejar-me, que sei que iria desencardir-me e usar-me, tentou negociar o meu valor. Mas a velha que tanto teima em ter-me na gaveta, nem como proxeneta do mercado negro dos naperons se quis ver livre de mim. E com um pedido de 120€ arrumou o assunto. A esperança morreu mas o meu ego foi alimentado com tamanha negociata – eu sou o último reduto dos naperons portugueses.

 

* Alguns termos foram alterados porque poderão ser considerados ofensivos e um naperon do meu gabarito não prima pela ordinarice.