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Devaneios Menstruados

Tudo o que aqui escrevo é real, por vezes um pouco exacerbado, outras vezes floreado. São os meus devaneios menstruados, as minhas histórias de vida, o emaranhado de cabos que forma a minha mente!

Tudo o que aqui escrevo é real, por vezes um pouco exacerbado, outras vezes floreado. São os meus devaneios menstruados, as minhas histórias de vida, o emaranhado de cabos que forma a minha mente!

Apalpar o pacote é obra! - Lidl

Lidl

 

Há coisas que me assustam e esta nova loucura da coleção de coisinhas em miniatura sob o argumento "são os meus filhos que estão a fazer a coleção" é, sem margem para dúvida, uma desculpa muito, mas muito, mas mesmo muito fraquinha. Vou frequentemente ao Lidl e ainda não vi uma só criancinha pedinchar, chorar, gritar ou implorar porque quer a miniatura do iogurte grego ou em ânsias para lhe sair aquele Persilzinho!

Assumo que tenho medo das perseguições que possa vir a sofrer devido a este texto. Aqui vai: tenho dois brócolinhos e um bifinho. Não dou, não troco, não vendo! 

Ontem saíram-me dois brócolos e presenciei um dos maiores tráficos de influências de sempre. A senhora que foi atendida antes de mim gastou apenas 15,59€ (o que ao sábado dá direito a duas miniaturazinhas) e o que é que aconteceu? Teve direito a pelo menos dez! E começa a loucura de apalpar o pacote. Valha-nos Deus, que tanto pacote se apalpa nas lojas Lidl nos últimos tempos. 

- "Olhe este já tenho." - Diz a cliente enquanto apalpa o pacote e identifica um saquinho de nozes.

- "Este é a caixa de ovos. Já tem?" - A senhora da caixa consegue com a mão esquerda passar as minhas compras pelo scanner e com a mão direita apalpar pacotinhos azuis e amarelos como se não houvesse amanhã.

- "Já. Acha que se arranja um pacotinho de Chocapic?" - Com a sua listinha do que falta nas mãos.

- "Tenho um compal. Serve?"

Preparava-me para pagar quando também eu pedi para apalpar o pacote. Queria perceber aquela capacidade de vidente, centralizada numa miniatura num Lidl perto de mim. Ganhei coragem e apalpei. Apalpei com jeitinho, preparando a ponta dos meus dedos para que apreciassem a subtileza numa miniatura escondida. Arrisquei:

- "É uma maçã!" - Disse com euforia e medo de falhar.

Após a apalpação personalizada das duas fizeram-me aquele olhar reprovador. 

-"Nada disso! É uma laranja".

Falhei redondamente e percebi que não tinha desculpa.

 

 

 

 

 

A Queda do Ego

Nem tudo o que reluz é ouro…

 

No auge dos meus vinte anos passei aquela fase do ego nos pícaros. Foi fácil perceber que estava a passar por essa fase. Numa tarde de sol radiante e enquanto fumava um cigarro com uns amigos senti-me observada por alguém. Encostado a uma parede frente a mim estava um belo rapaz com os seus olhos claros fixos na minha pessoa. Pensei alguns minutos e comentei com a malta que iria falar com ele. Aproximei-me e com uma enorme cara de pau disse-lhe:

- Estás fixo em mim há tanto tempo. Já nos conhecemos? (sempre tendo em mente que estava com os meus melhores jeans vestidos e com aquele top que me escondia o pneuzinho na barriga).

Ele sorriu e colocou a mão no bolso. Segundos depois oiço um “tac, tac, tac”. Olho para baixo e percebo que do nada surgiu uma bengala extensível. A resposta chegou rapidamente:

- Posso estar a olhar, mas sou cego!

Senti a cara a ficar de um vermelho intenso e rematei a conversa da pior maneira possível:

- Ainda bem. Porque estou vermelha que nem um tomate e preciso de arranjar um buraco para me esconder.

Enquanto era gozada à grande pela malta que ria em alto e bom som conversámos um bocadinho e pedi-lhe desculpa.

Mas aprendi a lição: toca a baixar o ego menina!

… Nem todos os que olham para ti te vêem.

 

Sem segundas intenções!

Entrei no comboio logo de manhã… O sono não me permitia ostentar um grande sorriso e muito menos “O” sorriso genuíno.

Quando me apercebi estava rodeada de caos e destruição! Eram oito e pouco da manhã e aquela carruagem prometia uma das viagens mais maradas e atribuladas dos últimos tempos… Um grupo, um grande grupo, assustador, barulhento, destabilizador do ambiente pacato da minha viagem de comboio onde deveria imperar o silêncio.

Esse grupo era composto por dezenas de crianças da escola primária!!! Gritos, gargalhadas e uma euforia desmedida às oito e pouco da manhã. Ao pé de mim sentaram-se 6 crianças. De salientar que estávamos num espaço com 4 lugares. Ajeitei-me e dei espaço a que elas se colocassem ainda mais à vontade. Trocámos olhares e fui desarmada pelo sorriso e aquele “bom dia” ternurento do Jaime.

Olhei para ele e sorri. E esse sorriso despoletou a conversa que viria a ser uma das melhores e mais genuínas conversas da minha vida!

Jaime: “Senhora, que horas são?”

Eu: “Quase nove. Onde vão?”

Inês: “Ao Oriente. Já lá estive uma vez a andar de bicicleta.”

Ricardo: “Eu fui no pior dia!”

Gabriela: “Qual?”

Ricardo: “Naquela exposição das pessoas com doenças mentais. É assustador.”

Gabriela: “Não fales nisso. Estive a beber água!”

Quando dei por mim estávamos a falar sobre as experiências de cada um no Oriente.

A Gabriela é a mais pequena dos seis. Tem um sorriso rasgado e gosta de provocar os outros cinco. A Inês tem uns óculos que lhe ficam o máximo naquela face redondinha e rosada. A Marisol é a melhor amiga da Gabriela. O Jaime, mulato de olhos claros, lindo de morrer e com o sorriso mais genuíno que alguma vez vi. O Ricardo, pequeno e magrinho e super interessado na língua inglesa. E o António mais tímido, mas também o que aparentou ter um grau de rebeldia superior.

Decidi tirar o meu caderno e começar a anotar alguns pormenores da nossa conversa.

Jaime: “Posso ler o que está a escrever?”

Eu: “Não preferes ler uma das minhas histórias?”

Passei-lhe o caderno… Leu… Sorriu e disse:

“É bonito!”

A Gabriela decide interromper com “Ele só lê histórias FNAF!”

Eu: “FNAF? O que é FNAF?”

E pronto… Surgiram os risinhos e o “gozo” que me fizeram sentir desatualizada e um pouco inculta nesta nova cena que é o FNAF (Five Nights at Freddy’s - série exclusiva do Cartoon Network. Podem saber mais aqui).

Continuaram as suas histórias, falaram sobre

a entrega de diplomas do 4º ano e como se emocionaram com o momento. Explicaram-me que não ambicionam ser médicos ou juízes, mas sim estilitas, ilustradores ou professores de inglês.

Senti que é tudo tão diferente daquilo que eu me lembro de quando tinha aquela idade. Não consumia FNAF… Corria e andava de bicicleta na rua, esfolava os joelhos, a minha mãe chamava-me à janela para eu ir para casa, jogava com berlindes e peões, destruía as brincadeiras dos meus irmãos e tinha amigos que brincavam comigo nas tardes infindáveis das férias da escola.

Inês, Marisol, Jaime, Gabriela, Ricardo e António obrigada pelos vossos sorrisos, pelas nossas conversas e por olharem para mim sem julgamentos, segundas intenções nem maldade.

Muitos gritos e muita euforia mas a verdade é que foram das melhores companhias na minha viagem de comboio.

 

Sem segundas intenções!.jpg

 

 

P.S.: Obrigada pelos desenhos! Vocês são os maiores!